sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Fui dar de beber...à dor

Ainda não foi hoje que me apaixonei, perdidamente, pelo meu novo carro.
À hora do almoço, ouvi falar do aumento de preço dos combustíveis. O costume. Lembrei-me, então, que tinha o depósito quase vazio e, antes que esquecesse, de má vontade pelas experiências negativas anteriores que tenho vivido nos postos de abastecimento, com este marafado, lá me decidi por outro posto de auto-abastecimento. Em mim, toda a esperança de não ver desperdiçada uma só gota do precioso líquido.
Porém... Porém, ainda não foi desta!
Não sei se por culpa do sistema que caracteriza o modelo do safado carro, se por culpa das mangueiras ou das incompetentes mãos que as têm vindo a usar, raras são as vezes que não pago "bebida" entornada ou apanho "duche gasolineiro".
Exactamente assim, começou hoje, a minha tarefa de abastecer. No entanto, teve uma gentil atitude, digna de registo.
Quando toda a minha fúria interior quase explodia com o fracasso das tentativas de dar o biberão ao bicho sem que ele vomitasse mais para o chão, eis que me surge ao lado, um ditoso cavalheiro, simpático, a informar-me do tamanho do meu desperdício e a disponibilizar-se para me auxiliar.
Lamentei minha incapacidade e ignorância. Agradeci a gentileza. Agradeci a explicação. Agradeci, ao despedir-me.
Então, olhei a direcção que tomava e vi o seu carro atrás do meu, na espera de vez. Lá dentro, a ditosa cara-metade, observara. Observava, tudo.
Furiooosa, LiXada comigo própria, entrei no magarefo e raspei-me dali.
Bolas!
Quando tiver a promessa do fim da crise e de voltar a receber a totalidade dos subsídios que me vão tirar, prometo que compro outro carro. Até lá, havemos de nos entender os dois, neste casamento de conveniência vivido com tristes cenas mas onde cada um tira benefícios do outro.
- Porta-te bem comigo, carrinho. Em troca, dispões dos meus trocos e levas-me a passear, sim?
...Veremos, para a próxima.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Alexandre O´Neill


De porta

em porta
-Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

-Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô

-Dinheiro? Isso não!
Já sei,pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho...

-Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

-Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele tem não tem mãe
e não é do Norte...

-Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?

Alexandre O´Neill

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Broas

Confesso que alimentava uma vaga esperança de ter sido perdoada. Atendendo ao acto generoso que eu dera como justificação para a "corrida infernal", à velocidade registada de 82km/h que, deduzida a margem de erro legalmente prevista passou a equivaler a uma infracção de 77km/h, numa rua que eu desconhecia ter perdido o estatuto de circular exterior há pouco tempo e onde , numa manhã primaveril ninguém mais circulava naquele momento, julgava-me digna duma amnistia natalícia.
Quando o assunto já estava arrumado na gaveta das calendas, eis que me surge o aviso de registo a levantar nos CTT.
A penitência começava no dia seguinte. Estacionamento pago para não perder tempo. Ao retirar a senha, sai-me o 346. Olho o écran e vejo registado o 229. Fico fula mas espero mais de uma hora.
Quando chega a minha vez, calha-me um funcionário simpático que, depois de me ver assinar o aviso e verificar a minha identidade, ainda me dá outro documento para nova assinatura. Comento o castigo. Rimos e ele avisa-me do provável montante da "porrada". No mínimo, são 120. É o costume.
Suspiro pelo belo vestido que não vou comprar.
Suspiro pela penúria do meu país que me entra nos bolsos mesmo que me porte bem.
Suspiro pelas broas que um coelho safado me vai comendo nas orelhas, com passinhos doces que me seduzem o olhar mas se transformam em garras de falcão.
Hoje fui ao mb debitar a coima. Aproveitei para fazer outros pagamentos. No final, o agrado era tanto que deixei cair a papelada toda no chão e, com outros à espera, lá fui apanhando cada talão e cada aviso.
A "lembrança" ficou paga. Agora, exijo que seja encontrada a melhor aplicação para a verba enviada. Ficarei atenta à gestão do orçamento, com todos os meus radares.
Haja saúde e Paz neste Natal, para todos.
Marimbo-me para o resto... como o outro.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Christmas Story - Journey Of The Angels/Silent Night by Enya.wmv



E foi assim que a minha amiga R. quis desejar-me as Boas Festas. Feliz Natal!

Natal, e não Dezembro




Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão Ferreira