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terça-feira, 12 de abril de 2011

Tempo de ser melhor

Basta um segundo e todos os nadas podem ser relativizados perante a evidência do perigo.
Hoje, de manhã, fui testemunha dum atropelamento. Foi tão perturbador que ainda me é difícil abstrair toda a sequência dos factos.
Foi, novamente, mais uma lição de condução após a aula de natação. Outro aviso, um grande e perturbante aviso, para que eu própria me torne mais consciente do modo como viajo e caminho, das limitações que também me vão afectando já e da forma distraída como conduzo, tantas vezes, reconheço.
O caso poderia ter-se passado comigo, com qualquer um. Basta um instante de distracção e facilitismo.
Ao regressar da natação, optei via túnel. Já próximo da entrada, vejo surgir de lá uma camioneta ligeira de caixa aberta, com um casal da minha faixa etária, talvez. Simultaneamente, no mesmo sentido, apercebo-me de uma figura feminina que se dispõe a atravessar a passadeira. Nem tive tempo de ver se a mulher olhou para a entrada do túnel. O meu pensamento ficou a meio embora tivesse durado menos de um segundo, tenho a certeza. Ouvi o estrondo daquele corpo na frente lateral da camioneta e vi a expressão de inevitável surpresa nos rostos do condutor e da sua acompanhante. Instintivamente, dei comigo parada ao lado da carroçaria sem ver a atropelada. Avancei um pouco e já outra mulher de telemóvel na mão chamava socorro. Outras pessoas vindas do mesmo sentido, já se aproximavam. Senti que nada podia fazer senão avançar para que o trânsito que vinha atrás de mim não perturbasse mais. Entrei no túnel acenando calma aos incautos que se aproximavam, para que não houvesse mais embates.
Por coincidência ou não, foi na 3ª-feira passada que fui multada por excesso de velocidade.
Dois grandes avisos. Dois momentos a demonstrarem-me que a vida é um exigente e constante apelo à nossa perfeição e um aviso à cautela e à consciencialização das consequências que a forma como utilizamos a nossa liberdade pode perturbar a vida de outros, iguais a nós.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sorrisos, PEC ados, Azares...Roubos, Crises e Radares...

Quando eu era miúda, via passar as carroças na minha rua. Apercebia-me do esforço dos animais puxando enormes cargas pela subida, em passo lento e sofrido. Não raras vezes, observei as vergastadas que os bichos recebiam no lombo e cujo efeito parecia gasolina a explodir-lhes nas patas. Muitas vezes pensei que, se fosse comigo, haveria de andar ainda mais devagar até consumir a raiva daqueles donos, tão bestas.
Hoje, acho que vivi uma caricatura parecida mas, ao contrário.
Esta manhã, por várias razões, atrasei-me depois da minha aula de "chapinhação". Uma delas porque a L., minha conterrânea, ao sair da nossa aula, foi confrontada com o assalto ao seu carro e o roubo de documentos e dinheiro. O caso envolveu a solícita brigada para tomar conta da ocorrência e "apoiar" a vítima. Fiquei mirone e comentadora, claro.
Com o sol a brilhar e o relógio a "tic...taquear", decidi-me a ganhar tempo indo pela antiga circular da cidade (agora chamada de rua e batizada com nome espanhol por sermos tão amigos dos vizinhos).
Juro que não me lembro de encontrar vivalma, um carro que fosse a passar, muito menos algum ligando as luzes, num desafio ao brilho do astro-rei.
Respirei fundo, contemplei os campos e lá vou eu até que, lado a lado com a escola, nem tive oportunidade de recordar as alegrias que vivi noutros espaços idênticos.
Pela frente, surge-me Angela Merkel, tal e qual, disfarçada de brigada de trânsito.
Pensei: Vá lá, lembraste-te de mudar os documentos do saco desportivo para a mala. Vamos ver se o vidro abre. Abriu e... fechou depois, também. Olaré!
Continência da autoridade. Pedido de documentos.
Preocupo-me com o clip que os segura mas, não faz mal. A tal visão, tão alemã a meus olhos, afasta-se até à viatura, discretamente fora da via e rodeada por duas generosas aves. Antes porém, recebo a vergastada no lombo. Toma!
Sou informada que o pedido de paragem não era só para ver documentos. Eu tinha sido caçada, lá no alto, pelo eficiente radar que registou uns escandalosos 80km/h, naquele fim de manhã, tão belo e tão sereno.
Manhosa, fingida, revisto-me com o meu ar de senhora respeitável, peço desculpa e esclareço:
-Vou com um bocadinho de pressa porque vou tratar do meu pai que tem 89 anos e está sozinho, à minha espera.
A prestimosa visão preocupa-se com o meu precioso tempo e avia-me depressa. Registou os meus dados sem demora e... prometeu enviar-me a penitência para a morada, informando-me das formas possíveis para eu cumprir a pena aplicada.
Acho que vou despender uns "aéreos" mas vou, também, relativizar a coisa e fazê-lo sorridente, sim senhor.
Tadito do meu pai se soubesse disto. Ficava preocupado e dava-me uma lição de moral e de boa condução.
Não sei se esta tramóia partiu do pobre do "Socras" ou foi ironia do meu próprio e velho automóvel. É que eu tenho andado a fingir-me de abonada em tempo de crise e a ponderar a hipótese de rifar o meu velhinho calhambeque, sabe-se lá se não só, por enfado. Afinal, sou condutora desde 1 de Outubro de 1970. Isto de se apanhar a 1ª talega por excesso de velocidade ao fim de 40 anos de condução e com uma viatura tão desvalorizada, faz-me sorrir e pensar que podia ser bem pior.

PS: Não vou aceitar o convite para 5/6. Obrigada. Ficarei a meditar no quanto sou perdulária mas também a dar graças a Deus pelo privilégio de tantas coisas boas de que tenho beneficiado na vida. As vezes que pisei o pedal sem consequências, incluem-se neste rol.
Ah, esquecia-me de registar que vou estar atenta à forma como serão gastos todos os cêntimos deste contributo que, forçosamente, vou dar para resolver a maldita crise.