sábado, 31 de agosto de 2013

Velhas Árvores

Passo naquela estrada desde que me conheço. Há semanas, comecei a ver, ao longe, um camião de troncos. Depois, achei que a sua permanência já se prolongava, por ali.
Num destes dias da semana, ao desfazer da curva, no final da descida, notei que a paisagem tinha ganho uma amplitude verde, maior do que o habitual. Algo mudara e o meu olhar estranhou ainda antes de eu compreender e notar a ausência das velhas árvores (para mim, choupos) que sempre vi a ladearem a vala da linha de água que separa os vinhedos.
Um só tronco desmembrado, ainda erguido e, em redor, caídos, os pedaços cortados do que fora um velho arvoredo a resistir ao alcatrão e ao betão, na sua missão de dar testemunho das minhas mais remotas memórias.
Senti um baque. Embora já fosse irreconhecível, agora, então, nunca mais a antiga "curva do Casimiro" será a mesma. Nunca mais voltará a ser o troço denso e misterioso que alimentava tantos medos, perigos e suposições, quase tornando intransponível o caminhar das gentes de outrora, rumo à cidade que nos ficava tão distante e tão difícil de alcançar.
Rasgou-se, por completo, o "Bojador" da minha terra, da minha infãncia.
Muitos dirão que tudo se faz pelo "desenvolvimento" mas, desenvolvimento passa também pelo respeito pela Natureza. Passa pela consciencialização de todos nós  na prevenção do perigo. Passa pelo empenhamento dos responsáveis políticos, pela disponibilidade de meios, pela formação humana.
Vejo o derrube das árvores pela acção do homem. Ouço e leio as notícias da tragédia dos fogos ateados por mãos criminosas e, em tudo isso descubro a pobreza de horizontes e de valores que é preciso combater.
Não podemos ignorar.
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Velhas Árvores

Velhas Árvores
 Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das porcelas...

O homem, a fera, e o insecto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac, in "Poesias"

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Nos braços de Morfeu

De repente, no Vale Escuro, dois raios luminosos precederam o inesperado ribombar de trovões, tão fortes como há muito tempo não se ouvia por aqueles sítios.
Pelos penhascos selvagens da colina, com pretensões de ser Estrela, como a Serra que lhe servia de referência, trepavam agora, rebanhos e rebanhos, bandos e bandos.
De um lado, começara por ver-se o "salve-se quem puder". Esgatanhando, trepando em busca do céu, os homens pareciam ser ovelhas amedrontadas, a querer correr, mas presas na mansidão da rotina a que estavam habituadas. Ao mesmo tempo, pareciam cagarras. Chilreantes, acostumadas à bravura dos mares mas, de asas cortadas, tementes pelas ninhadas, pelas crias, que lhes preenchiam os cuidados.
Do outro lado do penhasco, lá vai, outra vez, o rebanho ora descendo, ora parando, tosquiando "lana caprina", enquanto nas patas lhe anilham grilhões de ferro ou de aço. Rebolam-se, os bichos, em aflição, num "cai-te não caias", até se estatelarem nos pedregulhos do sopé do outeiro.
Num aperto final, soou, no Vale, um grito lancinante.
-Maldito pesadeeelo!
O alarme do hotel disparou trazendo aos corredores os hóspedes dos quartos vizinhos. Uns, em chinelos.Outros, em pelota, em roupão, em cuecas ou de tanga.
Os primeiros a surgir, abriram a porta do quarto 213 e clamaram ao estarrecido que acabava de acordar, sacudindo ainda, as mãos, como se lhas tivessem cortado.
-Que é isso, homem? Pronto! Não se passou nada. A noite está calma. Lá fora, o mar está chão e a madrugada não tarda a surgir, com a promessa de sol brilhante. Volte a dormir descansado.
No regresso de todos, aos respectivos aposentos, ouvia-se, em surdina:
- Não se faz isto, numa noite tão serena! Pânico, para quê? Há que responsabilizar este idiota.



sexta-feira, 12 de julho de 2013

Uma "flor"

Pensei que, desta vez, conseguiria resolver, apenas comigo mesma, todos os trâmites do "encosto" forçado, que tive.
Que raiva. Enganei-me, mais uma vez.
Afinal, durante o fim de semana, vou precisar de um parecer seguro, esclarecido, capaz de firmar a melhor decisão que devo tomar.
Detesto o provérbio mas, tenho de concordar com ele:
"Numa mulher, não se toca, nem com uma flor".

quinta-feira, 13 de junho de 2013

domingo, 9 de junho de 2013

Domingo de mea culpa

7h 19m. Acordo com o clique de um interruptor e salto da cama. Barafusto de imediato, perante a aparente pressa de iniciar uma manhã chuvisqueira, quando o nosso programa ocupacional se resume a ver passar as horas do dia. Depois da explosão, incontida, amuo comigo própria e desempenho as tarefas de higienista, enfermeira e camareira, em pleno silêncio. No final, ouço um "obrigado", que me perturbou as entranhas e me deixou no mais profundo sentimento de culpa e remorso.
 À hora a que, supostamente, planeara levantar-me, restava-me olhar para o lado, escolher e pegar nalguma daquelas ocupações que não me apetecia ver, à espera de serem feitas. Era cedo para começar o almoço. Tudo o resto, que continue à espera. Na cadeira da sesta, meu pai já sossegado, vê televisão de chácha, delicioso prelúdio para completar o sono nocturno que não viera, em tempo certo.
Para repor baterias, decido-me por uma saída e (necessidades de quem se sente pecador), resolvo ir à missa, na cidade. Sentei-me no último banco da igreja, junto da porta, para sair discretamente, se o Ofício Divino se prolongasse para além da hora que tinha disponível e que os meus horários rigorosos lhe concediam. Tudo decorria normalmente até ao momento em que a Assembleia dos Fiéis se levantou para escutar a leitura do Evangelho (Lc. 7, 11-17). Apercebo-me que, dois bancos à frente, uma idosa permanece sentada, imóvel, enquanto a senhora do lado tenta despertá-la da sua passividade, tocando-lhe no rosto, sem êxito. Outra, surge detrás e a 1ª, sai. Começo a prestar dupla atenção. Por um lado, escuto a leitura do Evangelho e vou associando as situações que me vão sendo apresentadas. Depois de alguns minutos, a pessoa que saiu volta com água, mas tudo se mantém na mesma. É preciso voltar a sair. Nem mesmo o padre se apercebe, ainda, de nada. Momentos depois, surge a equipa médica. Fazem um breve exame, afastam os bancos e retiram a senhora na posição de sentada, imóvel, para a cadeirinha que trazem. A missa continua. Os poucos que se aperceberam das movimentações, permanecem como antes. Em breve, ressoa aos ouvidos de todos, o som da ambulância, que se queda, bem próximo.
 Um baque em mim, retira-me daquele espaço e transporta-me para o lugar de onde eu tinha vindo. Durante a homilia, retive uma mensagem:
Às vezes, também morremos, quando levamos uma vida desalmada (sem alma) e precisamos que Deus nos devolva essa nossa Alma para que as nossas acções sejam plenas de Vida, na nossa relação com os outros.
O relógio galopa a par do meu desassossego. Saio, bem antes do final da cerimónia. Enquanto percorro os escassos metros até ao carro, volto a ligar o telemóvel e, mal me sento, escuto ansiosamente, os toques do telefone, em espera inquieta. Por fim, pergunto:
-Tudo ok?
 -Tudo ok. Já comi o lanche da manhã e já estava a passar pelas brasas!
 -Óptimo! Então, continua e passa pela "fogueira" toda. Ainda me demoro um pouco, tá bem?
 _Demora o tempo que quiseres. Não tenho fome, agora.
-Ufa! Que alívio, na minha consciência!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Ecos

Pela Primavera, Mãe, largavas a lida da casa, a agulha e o dedal e levavas-me contigo até ao "bocadito", o terreno onde as batateiras reclamavam ser sachadas. De lá, como se estivesse no alto do mundo, eu esperava ansiosa aquela voz do descampado que sempre respondia a tudo o que eu experimentasse gritar, com energia.
-Oláaa! -Oláaa! -Mãaae! -Mãaae!
Depois, era o partilhar todo o fascínio da magia da descoberta. Uma vez, por entre sorrisos, veio a explicação.
-Não há ninguém. É só o eco!É o som da tua voz que volta para trás, por causa da outra encosta.
 ...
 Hoje, Mãe, dia dos teus 90 anos, sinto falta de me encher de fantasia e pedir ao meu eco que não me engane na resposta e me traga, de retorno, a tua voz, a tua presença. Preciso de voltar ao "bocadito" mas, já não é possível. Quem dera que fosse apenas pelo rasgo que a nova auto-estrada desferiu naquele espaço, levando-o na voracidade do progresso.
 -Saudaade! -Saudaade!