quarta-feira, 8 de maio de 2013

Ecos

Pela Primavera, Mãe, largavas a lida da casa, a agulha e o dedal e levavas-me contigo até ao "bocadito", o terreno onde as batateiras reclamavam ser sachadas. De lá, como se estivesse no alto do mundo, eu esperava ansiosa aquela voz do descampado que sempre respondia a tudo o que eu experimentasse gritar, com energia.
-Oláaa! -Oláaa! -Mãaae! -Mãaae!
Depois, era o partilhar todo o fascínio da magia da descoberta. Uma vez, por entre sorrisos, veio a explicação.
-Não há ninguém. É só o eco!É o som da tua voz que volta para trás, por causa da outra encosta.
 ...
 Hoje, Mãe, dia dos teus 90 anos, sinto falta de me encher de fantasia e pedir ao meu eco que não me engane na resposta e me traga, de retorno, a tua voz, a tua presença. Preciso de voltar ao "bocadito" mas, já não é possível. Quem dera que fosse apenas pelo rasgo que a nova auto-estrada desferiu naquele espaço, levando-o na voracidade do progresso.
 -Saudaade! -Saudaade!

domingo, 5 de maio de 2013

sábado, 2 de março de 2013

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Carlos Drummond de Andrade, in Lição de Coisas)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O meu pai é o maior

Ontem, meu pai lembrou-me que devia levá-lo à farmácia para comprar os comprimidos que o ajudam a dormir. Achei boa ideia porque só esses estavam a acabar e não é possível ser eu a comprá-los sem receita. Fiquei no carro, em frente da farmácia e deixei-o ir, perguntando -lhe se tinha dinheiro na carteira. Ao voltar, já com o carro em andamento, sem eu saber porquê, ocorreu-me perguntar-lhe se tinha pago. Com toda a serenidade do mundo, ele respondeu-me que sim, que trazia o troco mas que o farmacêutico não tinha encontrado a nota que estivera separada na sua carteira e ele tinha posto no balcão.
Fervi! Que figura! Aceitar o troco sem ter pago ao homem! Ele mostrou-me as 5 notas de 20 que lá estavam juntinhas de um lado e outra de 10 que o farmacêutico lhe dera.  Explodi. Ele tinha-me dito que tinha 50 euros e afinal eram 100. Isso da nota solta era fantasia, de certeza. Inverti a marcha e fui perguntar ao homem se meu pai lhe tinha pago. Ele respondeu-me que estava a verificar a caixa e acabou por me dizer que lhe faltava o dinheiro. Entreguei-lhe os 20 euros que trouxera da carteira de meu pai e pedi desculpa prometendo que nunca mais o deixava ir sozinho fazer compras destas. O farmacêutico pediu-me que não o "castigasse". Afinal, eram óptimos os seus quase 91 anos.
Há pouco cheguei aqui a casa. O telefone tocou e, do outro lado, identificou-se o farmacêutico a lembrar-me o incidente de ontem. Depois de eu sair, a cliente que chegara atrás de mim e que eu ainda vi, encontrou no chão da farmácia uma nota de 20 euros.
Prometi ao farmacêutico levar meu pai, daqui a pouco, até lá para, talvez, gastar esses 20 euros em qualquer coisa que nos faça falta mas, sobretudo, para lhe dar a alegria de sentir, que só ele tem razão, como sempre foi desde que o conheço.
Mais uma vez, vou baixar as orelhas e sorrir!!! sorrir!!!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ano Novo

Feliz Ano Novo!
Há sons e há tons de grande prazer,
Mistura de alegres, com gente a sofrer.
Há povos, há povo.
Se a noite não vem, como surgirá novo Amanhecer?
A contagem recomeça e que ninguém desfaleça.
Nem mesmo tu, já cansada.
Se olhares com firmeza, verás encantada,
Que afinal,
A Vida que tens já é a riqueza
Que te foi doada.
Constrói a Paz, na candura da flor que vês,
No riso traquina do menino ranhoso ou no mais vistoso,
No esforço que te faz suar p`ra poderes chegar.
Bem vindo, 2013!
Traz contigo um mundo melhor, partilhado por todos,
Em Igualdade e Amor.

Nesse vigor do teu nascer,
Faz-nos ser o Bem que cada um merece ter.